O FAZER E O SER

Durante grande parte de minha infância e adolescência, eu aprendi a fazer. Meu pai não me dava tréguas. Menina faça isso! Aprenda àquilo! Você precisa entender que tem que ser a melhor! Estude desta maneira! Tenha notas altas. Se sobressaia!

E por aí corria a ladainha. Não havia espaço para expressar a minha verdadeira natureza, meus anseios, aquilo que realmente eu queria e acreditava ser verdadeiro. Isso não era claro para mim, naquele momento, apenas a raiva e o sentimento de frustração seguiam meu processo.

Eu sei agora que ele tentava que eu fosse a melhor segundo seus parâmetros. Queria que eu vencesse na vida, através do fazer.

Virei uma fazedora de coisas. Como mulher aprendi, a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Algo que eu não conseguia ainda perceber era o congelamento dos meus melhores sentimentos, aqueles que brotam da espontaneidade, da sinceridade de poder simplesmente estar relaxada e poder escolher.

Todo esse processo que pode ser imposto de muitas maneiras, não permite que nos realizemos através de pequenas ações que surgem da nossa natureza verdadeira. Aquilo que somos e que fica escondido e abafado por todas as falas que ouvimos e atitudes que tomamos inconscientemente, apenas ouvindo as vozes do passado.

Mas isso não sou eu?! Quem sou eu então?

Esse questionamento que surge de repente nos leva a um conflito entre o fazer para obter algo, e o Ser espontâneo que não exige esforço.

Que coisa difícil de entender e vivenciar! Sem esforço?! Mas não foi isso que aprendi! Aprendi que tem que ser com esforço e que é muito duro!

Só que descobri que isso não foi minha escolha. Escolheram para mim. E agora…

Começa então uma outra etapa, a de ouvir o que está escondido bem lá no fundo. Aquilo que ficou em segundo plano e que não pôde ser expressado. O lado luz da força. A minha, a sua identidade mais profunda, o seu Eu. O nosso Eu Sou. Ouvir Gaia, o espírito da Terra, para encontrar os nossos registros e incorporá-los. Ouvir os ecos do nosso Eu incorporado.

Como vou conciliar o fazer com o ser? A resposta está na atitude da escuta. Escutar a pequena voz que está além dos pensamentos e conter os impulsos de sair para fora, de se distrair com o supérfluo. Algo tão velho quanto é velho o Universo, se podemos dizer assim, só para entender. Costurar esses pedaços para criar a colcha da nossa vida a partir dessa nova perspectiva.

As coisas começam a mudar quando a nossa essência, a nossa alegria, a nossa ação criativa incorpora o FAZER num outro nível.

O nível do SER. Eu não tenho que fazer nada! Eu não preciso fazer nada que não seja viver e me amar. Não fazer através de memórias, mas desse espaço que sempre existiu em mim, mas que não toquei porque fiquei paralisada. O espaço da Presença.

Depois deste estágio a compassividade aflora e você pode irradiar o amor para todos.

E porque tudo isso? Porque numa bela manhã de sábado escutei dentro da minha cabeça, depois de vários conflitos egóicos com o fazer… bem alto: Deus não te pede nada! Ele não precisa que você faça nada! Ele já é tudo, inclusive você! Ele quer apenas que você seja feliz!

Com este impacto, acordei e abri os olhos para a luz do meu Ser.

Maria Helena
Psicoterapeuta de Trauma (Experiência Somática)

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